O território enquanto sistema de inscrições acumuladas e arquivo distribuído.
A orla atlântica ibérica conserva múltiplas camadas de memória pré-romana, histórica, oral e simbólica, manifestadas de forma descontínua em vestígios materiais, nomes de lugares, narrativas populares, práticas culturais e formas persistentes de imaginar a paisagem.
O campo propõe que o território pode ser lido como um sistema de inscrições acumuladas. Cada lugar reúne tempos, usos, narrativas e interpretações que se sobrepõem sem formar necessariamente uma sequência linear ou uma continuidade histórica demonstrável.
As relações encontradas são tratadas como hipóteses de leitura. A proximidade geográfica, formal ou simbólica entre dois fenómenos não demonstra, por si só, uma ligação histórica directa. Esta distinção é central: o projecto separa cuidadosamente a relação interpretativa da continuidade histórica demonstrada.
A metodologia procura estabelecer relações fundamentadas entre fontes e assinalar os momentos em que a documentação termina, a probabilidade começa e a interpretação se torna necessária.
Neste campo, anamnese designa a operação de tornar novamente perceptíveis as camadas que a sedimentação histórica encobriu sem apagar inteiramente. A serpente — figura da memória que permanece sob sucessivas camadas de ocupação, romanização e cristianização — é o emblema dessa operação.
A serpente nunca esteve perdida. Permaneceu inscrita na paisagem, à espera de leitura.