A Terra das Serpentes. Vestígio textual, hipótese geográfica e matriz simbólica.
O nome Ophiussa chega através da Ora Maritima, de Avieno, poeta latino do século IV que preservou em verso materiais atribuídos a um périplo massaliota muito anterior — possivelmente dos séculos VI ou V a.C. Nesse texto, uma parte do extremo ocidental da Península surge associada ao nome Ophiussa: a Terra das Serpentes.
O termo deriva do grego óphis (serpente). A designação inscreve a serpente na própria nomeação do território, antes de qualquer leitura simbólica posterior.
documentado — a existência da referência na Ora Maritima
interpretado — a sua localização e extensão exactas
Avieno compila e versifica fontes anteriores, o que torna a Ora Maritima um texto estratificado: um documento tardio que conserva materiais muito mais antigos, sem que seja sempre possível distinguir as camadas. Esta condição — um texto que é ele próprio um arquivo de camadas sobrepostas — espelha o método do projecto.
A origem, localização e extensão exactas da designação permanecem discutidas pela historiografia. As leituras variam entre uma faixa restrita do litoral ocidental e uma extensão mais ampla da fachada atlântica peninsular.
O projecto não procura resolver esta questão. Trata a indeterminação como produtiva: é precisamente na zona onde a documentação termina e a interpretação começa que a investigação artística encontra o seu espaço.
As relações encontradas são tratadas como hipóteses de leitura. A proximidade entre o nome Ophiussa e a densidade de motivos serpentinos na região não demonstra, por si só, uma continuidade histórica directa — mas constitui uma recorrência simbólica que o projecto regista e investiga.
Ophiussa é abordada simultaneamente como vestígio textual, hipótese geográfica e matriz simbólica. A indeterminação constitui uma das aberturas da investigação.
Como lugar liminar, Ophiussa entra na mesma família de espaços de fronteira que o projecto investiga: Avalon, as Hespérides — territórios situados no limite do mundo conhecido, entre o documentado e o imaginado, onde o arquivo, a memória e o mito se encontram.